João Gomes de Araujo

O compositor brasileiro João Gomes de Araujo nasceu em 5 de agosto de 1846, em Pindamonhangaba, Vale do Paraíba, interior do Estado de São Paulo.

As primeiras etapas de sua formação musical aconteceram em sua cidade natal e posteriormente no Conservatório de Música do Rio de Janeiro, cidade onde conheceu Antônio Carlos Gomes. No início da década de 1880, recebeu auxílio financeiro do Imperador Pedro II para aperfeiçoar-se em Milão, onde compôs sua primeira ópera, Edmea, para sua formatura no Real Conservatório de Milão.

Criou em seguida, para o Teatro Dal Verme, da mesma cidade, Carmosina, uma ópera com libreto do renomado Antonio Ghislanzoni, um dos libretistas mais respeitados da Itália. A estreia, que contou com a presença do próprio imperador brasileiro e sua família, teve um considerável sucesso. Nesse período, João Gomes de Araujo conheceu compositores como Amilcare Ponchielli, Pietro Mascagni e outros que formavam a vanguarda da ópera italiana da época.

Gomes de Araujo volta ao Brasil no ano de 1888. Quase quinze anos depois, retorna à Itália e lá escreve, em 1904, a ópera Maria Petrowna.

Mais uma vez de volta ao seu país natal, muda-se para São Paulo, onde, em 1906, compõe Helena, sua quarta e última ópera. No mesmo ano participa da fundação do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, no qual permanecerá como um de seus principais professores até perto de sua morte, em 1943. 

Tanto Helena quanto Maria Petrowna estrearam no Theatro Municipal de São Paulo muitos  anos depois de serem compostas, respectivamente, em 1916 e 1929. 

Ao longo de sua vida compôs, ainda, onze missas, seis sinfonias e outras obras vocais e orquestrais, inclusive para formação camerística. Entre suas obras não operísticas, destacam-se a cantata Pátria, para coro, orquestra e solistas, e Trilogia da Noite, para grande orquestra. 

Hoje, João Gomes de Araújo é um nome quase desconhecido no ambiente musical brasileiro e parte considerável de suas composições encontra-se em mau estado de conservação. Dois arquivos são fundamentais para o acesso à obra do compositor, o Arquivo João Antônio Romão, em Pindamonhangaba, e o acervo do extinto Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, no Centro de Documentação e Memória no Complexo Theatro Municipal de São Paulo. Dentro do projeto de inventariação de parte do acervo, coordenado pelo Prof. Paulo Castagna (UNESP), existem subseções dedicadas ao compositor e a seu filho, também compositor, João Gomes Júnior, organizadas pelo maestro Gabriel Rhein-Schirato, como parte de seu doutorado dedicado à análise das quatro óperas de Gomes de Araújo.

Graças à recuperação do manuscrito original da partitura orquestral da ópera Helena, inventariado em janeiro de 2024, o Núcleo de Criação de Ópera do Festival de Música Erudita do Espírito Santo pôde produzir uma edição digitalizada completa da obra, sob a supervisão de Rhein-Schirato, com extração das partes orquestrais e elaboração de uma redução para canto e piano.

Não foram encontradas, até o momento, quaisquer notícias de que a ópera tenha sido novamente apresentada ou gravada após a sua estreia em 1906. Passados 110 anos, Helena ganha uma nova estreia na abertura da 14ª edição do Festival, apresentando ao grande público um importante capítulo da música de concerto brasileira. 

Ignácia Nogueira

Soprano de rara sensibilidade, Ignácia Nogueira é dona de uma voz que encantou nomes como Isaac Karabtchevsky e Francisco Mignone, com os quais teve a oportunidade de cantar ainda no início da carreira.

Nascida em Vila Velha, em 1941, Ignácia desde cedo demonstrou aptidão para o canto. Ainda menina, cantava nas festividades escolares, e sua habilidade a levou ao palco do Theatro Carlos Gomes na celebração do jubileu de ouro do Colégio Estadual – isso sem nunca ter estudado canto.

Apesar da reprovação inicial do pai, que não queria ter filha cantora, Ignácia perseguiu seu sonho. Sem o conhecimento da família, preparou-se para as provas da Escola de Música do Espírito Santo (atual FAMES) e foi aprovada em primeiro lugar no curso de canto. Teve como primeiras professoras Semita Valença e Ivonezita (Ivone Esteves de Lima), mas foi através da professora Maria de Lourdes Cruz Lopes, com quem fazia aulas regulares no Rio de Janeiro, que sua carreira começou a ganhar fôlego. Com a pianista Any Cabral, fez seu primeiro recital solo em 1966 no Clube Sírio-Libanês de Vila Velha.

A professora Cruz Lopes a incentivou a participar do concurso para cantora solista da Orquestra Sinfônica Brasileira em 1969. Um concurso considerado muito difícil e que lhe resultou a primeira colocação e a possibilidade de fazer um concerto da Série Juventude junto à prestigiosa orquestra, sob regência de Isaac Karabtchevsky, que lhe reconheceu grande qualidade vocal. No programa, obras de Jean-Baptiste Lully, Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos e Francisco Mignone, que fez o arranjo orquestral de O Doce Nome de Você especialmente para este concerto.

No mesmo ano, Ignácia protagonizou outro memorável encontro com Francisco Mignone, desta vez em sua terra natal. A convite da Sociedade de Cultura Artística de Vitória, os dois apresentaram um aclamado recital de piano e voz dedicado a obras do compositor.

O destaque na mídia carioca resultou em reconhecimento em terras capixabas. Nos anos seguintes, Ignácia viveu na estrada entre Vitória e o Rio de Janeiro, onde seguiu seus estudos acadêmicos, formando-se em licenciatura em música na UFRJ. Sua carreira docente, entretanto, seguiu para o universo das letras, tornando-se professora de espanhol no Colégio Estadual do Espírito Santo e português no antigo CEFET, atual IFES. 

Em 1990, Ignácia participou do tradicional Curso Internacional de Música Espanhola em Santiago de Compostela, onde recebeu o Prêmio Luis Coleman de melhor intérprete de música espanhola. 

Em Vitória, Ignácia contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do cenário da música de concerto. Cantou regularmente nos principais espaços e eventos da cidade. Destacam-se sua participação no I Festival de Música Erudita Capixaba, em 1982, no qual interpretou e gravou a canção Nostalgia de Alceu Camargo, e a participação como solista no concerto da Orquestra Sinfônica da Hungria em 1996, sob regência do maestro Ervin Acél, dentre muitos outros eventos.

Ignácia optou por deixar os palcos em 1996, após décadas de dedicação à música. Com esta homenagem, desejamos que sua voz siga reverberando na memória cultural do Espírito Santo.

Fernando Magre