Violão e percussão
Belchior Guerreiro, violão
Daniel Lima, percussão
Gabriel Novaes, percussão
Participação especial: Cássia Carrascoza, flauta
Fernando Iazzetta (1966)
Cage
Eliana Sulpício (1963)
The Old House
Rodolfo Coelho de Souza (1952)
Diálogos
Marcus Siqueira (1974)
Quando os Ventos Cantam as Memórias
Ney Rosauro (1952)
Toccata and Divertimento
Elodie Bouny (1982)
Chant d’Espoir (Canto de Esperança)
Arranjo coletivo
Marco Pereira (1950)
Num Pagode em Planaltina
Arranjo coletivo
Baden Powell (1937-2000) e Vinicius de Moraes (1913-1980)
Canto de Ossanha e Saravá
Arranjo coletivo
Quando falamos em música brasileira, entre muitos pensamentos, certamente passamos pela tradição da percussão e do violão, pelo hibridismo sonoro que se desdobra na música de concerto e na música popular. São instrumentos integrados em rituais, concertos, teatros, bares e shows. A cultura africana nos trouxe, assim como no futebol a ginga, um certo transe, a dança e a relação direta do som com o corpo. A percussão estabelece diálogos físicos; são coreografias nas quais o corpo assume uma dimensão visual no diálogo entre os músicos, ampliando a presença física da performance.
Neste programa, estão presentes compositoras e compositores instrumentistas. Quase todos são músicos que se apresentam ou se apresentaram como performers, e fica o convite para que o público observe se essa é uma característica determinante na escuta das obras.
Este recital é dividido em três partes: duo e solo de percussão; duo de violão e percussão e, finalmente, quarteto para flauta, violão e percussão, cujas obras pertencem ao repertório da música instrumental brasileira de caráter popular.
As três primeiras obras do programa são influenciadas pelo minimalismo proposto por Steve Reich.
Percussão
Cage, duo de percussão de Fernando Iazzetta, percussionista e compositor, foi escrita para a abertura de um programa do Duo Contexto, formado por Eduardo Leandro e Ricardo Bologna. O título da obra é uma provocação, pois induz a pensar no compositor norte-americano John Cage. No entanto, Iazzetta afirma que cage refere-se ao sentido de gaiola. A peça apresenta muitas passagens em uníssono, e os dois percussionistas utilizam uma montagem de instrumentos idêntica. Recomenda-se que essa montagem seja feita em círculo e de maneira simétrica. Dessa forma, os instrumentistas tocam de costas um para o outro. Com isso, as passagens em uníssono não apenas soam iguais, como também, visualmente, os dois músicos executam uma espécie de coreografia espelhada. A peça se desenvolve a partir de células que se transformam e se repetem, evidenciando influências do minimalismo de Steve Reich.
The Old House, para marimba solo, de Eliana Sulpício, percussionista e compositora, integra a Suíte para Marimba Solo, Four Impressions of New Hampshire, composta durante o período em que a compositora residiu em Boston para estudos. De caráter minimalista e com momentos não tonais, a suíte tem cada movimento precedido por um pequeno poema no estilo haikai, que pode ser lido antes da execução ou disponibilizado no programa. Nas palavras de Sulpício: “As diferentes paisagens e ambientes me inspiraram a escrever uma música que fosse um retrato sonoro das minhas impressões.”
Poema
Muitas vidas ali passaram
Na penumbra da noite,
Quanto mistério se esconde
Na velha casa.
Diálogos, para marimba e vibrafone, de Rodolfo Coelho de Souza, composta em 1988, é dedicada ao Duo Diálogos, formado por Carlos Tarcha e Joaquim Abreu. Trata-se de uma composição minimalista, na qual as ideias musicais se repetem diversas vezes e se sobrepõem em imitação canônica, como em um espelho. Cria-se um fluxo contínuo de sons, sem silêncios, enquanto as estruturas se modificam por meio de pequenas transformações melódicas e rítmicas. A peça é composta por cinco seções e se desenvolve em direção a uma intensificação rítmica, retomando a ideia inicial para concluir a obra com um rallentando e um decrescendo. Assim como na obra anterior, a coreografia implícita na execução pode servir de apoio para a escuta das repetições. Algo de hipnótico permanece no ar.
Violão e percussão
Quando os Ventos Cantam as Memórias, para violão e percussão múltipla, de Marcus Siqueira, compositor e violonista radicado na Itália. A obra foi composta em 2016, com caráter intimista que evoca o período da mudança de Siqueira para a Europa. Nela, estabelecem-se diálogos entre o violão e um conjunto de pequenos instrumentos de percussão, com várias sequências isorítmicas (ritmos idênticos nas duas vozes). A partir desse recurso, a peça propõe um jogo de virtuosismo camerístico. Nas palavras do compositor: “Ao invés de tratar o violão de forma convencional, a escrita exige do intérprete uma exploração física do instrumento: o violão e a percussão não apenas dialogam, eles se fundem em uma paisagem sonora que traduz a respiração e os ventos de uma mente acessando seu próprio passado.”
Toccata and Divertimento, para violão e vibrafone, de Ney Rosauro, percussionista, regente e um dos mais importantes compositores para percussão dos séculos XX e XXI. Carioca, radicado nos Estados Unidos, mantém uma intensa carreira internacional como performer. A obra é composta por dois movimentos e apresenta um forte caráter modal, evocando a música nordestina. A Toccata se desenvolve sobre uma linha melódica fluida e de caráter lírico; já o Divertimento propõe um jogo rítmico entremeado por frases que se alternam entre os instrumentos.
Chant d’Espoir (Canto de Esperança), de Elodie Bouny, violonista e compositora franco-brasileira. A peça foi escrita em meio à pandemia e o título remete ao sentimento de esperança que a artista procurou alimentar durante aquele período. A compositora cria um tecido musical intermitente entre o violão e a marimba, com um jogo rítmico no qual o violão pulsa em dois, em contraposição à marimba, que pulsa em três, criando uma sensação de inquietude. Sobre essa teia sonora, a melodia se desdobra com liberdade rítmica e lirismo.
Num Pagode em Planaltina, de Marco Pereira, violonista e um dos grandes compositores brasileiros para violão. A obra evidencia seu profundo conhecimento da música de concerto e da música popular, transitando entre essas duas áreas. Num Pagode em Planaltina é uma obra de rítmica brasileira, sincopada, melodia lírica e grande virtuosismo.
Canto de Ossanha e Saravá, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Baden Powell, compositor e violonista, é considerado um dos maiores virtuoses do violão, criador de um estilo próprio e com formação tanto na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro quanto na intensa colaboração com grandes nomes da música popular brasileira e internacional. Vinicius de Moraes é um dos mais importantes poetas e letristas brasileiros.
As obras fazem parte da série Afro-sambas, gravada por Baden Powell e Vinicius de Moraes. Canto de Ossanha faz referência ao orixá Ossanha (ou Ossain), patrono da vegetação, das ervas e dos preparados rituais e medicinais. Saravá refere-se a uma saudação e a uma bênção de origem afro-brasileira, utilizada nas religiões de matriz africana.
O grupo desenvolverá um arranjo coletivo a partir dos temas dos compositores procurando estabelecer conexões com elementos da cultura afro-brasileira.
Saravá!