Travessia

Colatina
24/11, às 13h30
CEEFMTI Conde Linhares
R. Adamastor Salvador, 64 – Centro

Aracruz
25/11, às 14h
Escola Municipal de Ensino Fundamental Indígena Caieira Velha
Rua projetada s/n Aldeia Caeiras Velha

Cariacica
26/11, às 10h
EMEF Vienna Rosetti Guterres
Rua Mario Araújo,176, Santana, Cariacica

Travessia

Débora Neves, soprano

Victor Polo, violão 

Léo de Paula, percussão 

Livia Sabag, concepção

 

Leo de Paula
Ipuan

Dorival Caymmi
Pescaria

Baden Powell, Vinícius do Mar
Bocoché 

César Guerra-Peixe
Mãe d’água (voz

Villa-Lobos
Veleiros

Eunice Katunda
Chorinho

Caetano Veloso
Os argonautas

João Bosco, Aldir Blanc
O mestre sala dos mares

 

Por séculos, as correntes marinhas foram as principais rotas de contato entre o Brasil e o mundo. Essas rotas presenciaram todo tipo de travessia: por desejo, por necessidade, por imposição. A cada zarpada, um mundo de expectativas, de ideias, de culturas velejava de uma margem a outra. Nesse movimento, Oswald de Andrade nos enxerga como antropófagos: devoramos o estrangeiro que aqui aporta e dele fazemos nossa própria expressão. Seria essa nossa maior vocação?

O concerto cênico Travessia convida o público a mergulhar em um pequeno conjunto de músicas brasileiras, que através de águas poéticas, revelam muito da cultura brasileira, sua diversidade e originalidade.

O concerto inicia com Ipuan de Léo de Paula, solado no handpan pelo próprio compositor. Composta em 2020, a obra traz elementos do ijexá, ritmo sagrado afrobrasileiro. Ipuan é uma palavra tupi que remete a ilha e água em abundância, trazendo à memória as águas capixabas.

Dorival Caymmi, em suas Canções Praieiras de 1954, cantou as alegrias e tristezas, mistérios e crenças da vida na beira d’água. Em Pescaria, apresenta uma perfeita simbiose entre texto e música, em que as ações do pescador são descritas em ritmo constante e vigoroso.

O mar se agita. Em Bocoché, uma menina bonita se lança ao mar em busca do seu amor. Onda que vai, tristeza que vem, viagem sem retorno. A travessia para o fundo do mar encontra o acalento de Iemanjá. Bocoché integra a série de afro-sambas lançados por Vinicius de Moraes e Baden Powell em 1966. 

Mãe d’Água, para voz e violão, foi composta em 1969 por César Guerra-Peixe. Faz referência à Iara, lenda amazônica da sereia que, com seu canto, atrai os homens para o fundo do rio. Guerra-Peixe constrói uma música de caráter misterioso, em que o canto, sem palavras, soa ora como lamento, ora como sedução. 

Um veleiro se abandona ao mar. Sua viagem é conduzida pelos ventos, que sopram sem direção. Em Veleiros de Villa-Lobos, um amor melancólico viaja à deriva, à luz da lua. A canção integra a obra Floresta do Amazonas de 1958, com versos de Dora Vasconcellos. 

Numa beira de mar, um violão seresteiro convida à contemplação. Chorinho de Eunice Katunda é parte da Suíte Nazaré, composta em 1963 em homenagem a Ernesto Nazareth. Neste choro para violão solista, há um diálogo entre as melodias sinuosas e os acordes blocados em uma célula rítmica marcante. 

Conta a mitologia grega que os Argonautas eram marinheiros que viajaram em busca de um velocino de ouro. Em Os Argonautas, lançada em 1969 no disco Caetano Veloso, nosso aedo moderno atravessa o Atlântico e encontra nos versos de Fernando Pessoa seu estribilho: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Para o poeta português, não é necessário viver, mas sim criar, oferecer sua essência à evolução da humanidade. Em seu fado, Veloso sai rumo ao desconhecido, navegando pelas águas turbulentas daqueles anos de chumbo. Poderá encontrar Ulisses numa rota desviante e, com alguma sorte, um futuro mais gentil para seu país. 

Ao fim de nossa travessia, João Bosco e Aldir Blanc exaltam em O Mestre Sala dos Mares a coragem de João Cândido, marinheiro negro que comandou em 1910 a Revolta da Chibata. A canção foi lançada em 1975 no disco Caça à Raposa e, apesar da censura, garantiu que a história do Almirante Negro continue sendo entoada.

                    Fernando Magre