Quinteto
Maíni Moreno, harpa
Lucas Rodrigues, flauta
Jacqueline Lima, violino
Rodney Silveira, viola
Jonathan Azevedo, violoncelo
Claude Debussy (1862-1918)
Sonata para flauta, viola e harpa
Maurício Dottori (1960)
Glaciers, soleils d’argent, flots nacreux, cieux de braises
Tatiana Catanzaro (1976)
Quadros de um museu imaginário
Heitor Villa-Lobos (1887-1959)
Quinteto Instrumental
Uma forte tradição da flauta foi estruturada na França, o instrumento teve grandes construtores naquele país e recebeu inúmeras obras de compositores notáveis. Foi no Conservatório de Paris que a flauta consolidou uma tradição pedagógica e interpretativa de alcance internacional. Entre seus grandes flautistas, destacam-se, como professores, Devienne, Taffanel, Gaubert, Moyse, Marion e, a partir de 1998, Sophie Cherrier, a primeira mulher a assumir esse cargo. A sucessão desses professores definiu um modelo de sonoridade, técnica e repertório que influenciou gerações de flautistas. Essa tradição também repercutiu na formação da escola brasileira de flauta.
A flauta ocupa um lugar de destaque na história da música brasileira. Sua presença atravessa diferentes períodos e estilos, e grandes flautistas, alguns também compositores, fazem parte dessa história: Antônio Callado, Patápio Silva, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Altamiro Carrilho, Hermeto Pascoal, e muitos mais que têm seus sons impressos em gravações de músicas de concerto, na bossa nova, na MPB e nos chorinhos. Quem não conhece o som de Celso Woltzenlogel na introdução de Trocando em Miúdos de Chico Buarque?
Essa tradição, no Brasil, também foi construída por importantes flautistas mulheres. Destacam-se a norte-americana Grace Lorraine Henderson e a francesa naturalizada brasileira Odette Ernest Dias, que colaboraram com diversos compositores brasileiros, fomentando a criação de novos repertórios para o instrumento.
Segundo Pierre Boulez e o musicólogo Paul Griffiths, é com o solo inicial da flauta em Prélude à l’après-midi d’un faune (1894), de Debussy, que se inicia o modernismo na música. O compositor desvendou uma sonoridade que estava velada no repertório do instrumento e, a partir dela, colocou a flauta em um lugar central na escrita musical contemporânea.
Este recital reúne obras brasileiras para flauta, que refletem a influência francesa em nosso repertório. Inicia-se com a Sonata para flauta, viola e harpa (1915), de Claude Debussy, obra com a qual o compositor criou uma formação instrumental inovadora, que propõe combinações timbrísticas complementares entre os instrumentos, criando ambientes sonoros plásticos que evocam coloridos, lirismos e a exploração de novas sonoridades. É interessante observar que, mais tarde, essa formação se expandiu na França e, nos anos 1930, foi ampliada para quinteto, com o acréscimo de um violino e um violoncelo. Nesse contexto, em 1957, Villa-Lobos recebeu da Orquestra da Radiodifusão Francesa a encomenda do Quinteto Instrumental, que trazemos para este recital com a intenção de evidenciar a circulação de influências e percursos criativos entre os dois países.
Escrita durante a Primeira Guerra Mundial, a Sonata para flauta, viola e harpa, com três movimentos – Pastorale, Interlude e Finale, incorpora referências da tradição musical francesa, reafirmando elementos estéticos que o compositor procurava valorizar. A formação instrumental consolidada por essa sonata tornou-se referência para compositores do século XX e deu origem a um repertório significativo para essa formação internacionalmente.
Glaciers, soleils d’argent, flots nacreux, cieux de braises (Geleiras, sóis prateados, ondas de madrepérola, céus incandescentes), se insere neste contexto. Composição de Maurício Dottori, carioca radicado em Curitiba, foi escrita em 2016, em um único movimento. O trio explora sonoridades contemporâneas produzidas com gestos musicais diferentes dos sons tradicionais dos instrumentos, as chamadas técnicas expandidas.
Dottori dialoga e desdobra as texturas musicais do trio de Debussy, ora remetendo a sonoridades líricas, ora explorando, entre outras sonoridades, trêmulos que podem ser trazidos pela memória como uma extensão do que Debussy propôs em seu trio. O compositor afirma, de maneira poética, que, ao escrever a obra, “imaginou o que seria escutar com os ouvidos de Debussy”. São influências sonoras reconhecíveis, que podem guiar uma escuta transversal da obra.
Premiada pela Funarte no ano de sua composição, a obra é inspirada no poema O Barco Ébrio (Le Bateau ivre), de Arthur Rimbaud, do qual foi extraído seu título.
As duas últimas obras do programa são escritas para o quinteto formado por flauta, violino, viola, violoncelo e harpa.
Tatiana Catanzaro escreveu Quadros de um museu imaginário, em 2000. A obra tem três movimentos – O Narciso de Caravaggio, A Valsa de Camille e As Banhistas de Renoir. Como em outras de suas composições, Catanzaro utiliza sua leitura de outras artes como inspiração e como ponto de partida para construção de tecidos sonoros que refletem suas percepções de mundo. Nas palavras da compositora: “Esta peça é fruto da minha primeira viagem à Europa e das reminiscências que dela ficaram em mim. Ali, as obras, transformadas pela memória, fermentadas e sedimentadas no âmago da minha carne, tomaram outros contornos, já não pertencentes aos seus criadores. Dessa metamorfose surgiu meu museu, alojado desde então em um canto recôndito do meu corpo “.
O programa termina com o Quinteto Instrumental, de Heitor Villa-Lobos, composto em 1957, uma das últimas obras do compositor. A peça foi encomendada pela Orquestra da Radiodifusão Francesa, grupo com o qual, na década de 1950, Villa-Lobos executou e gravou as Bachianas Brasileiras, os Choros e a Suíte Descobrimento do Brasil. A obra é composta por três movimentos – Allegro non troppo, Lento e Allegro poco moderato. Apresenta características da música francesa e uma orquestração transparente, que permite distinguir com clareza as diferentes vozes. Ao longo da obra, alternam-se passagens em uníssono e momentos de grande virtuosismo distribuídos entre os cinco instrumentos. A estreia ocorreu postumamente, no Rio de Janeiro, em 1962.