Duo clarinete e piano
Cristiano Costa, clarinete
Willian Lizardo, piano
Sigismund Neukomm (1778-1858)
Fantasia para clarinete e piano
Carlos Gomes (1836-1896)
Ária, para clarinete e piano
Darius Milhaud (1892-1974)
Saudades do Brasil, op. 67
X. Paineras
XII. Payssandu
Ernst Mahle (1929-2025)
Sonatina
Paulo Costa Lima (1954)
Peripécias op. 56: Look at the sky!
Marisa Rezende (1944)
Ânima
Edmundo Villani-Côrtes (1980)
Luz
Francisca Aquino (1956-2019)
Gosto de Brasil
Iniciamos este programa com duas obras que estabelecem uma ponte direta com a ópera. São obras que dialogam entre si pelo gênero e pela forma adotada no Romantismo como expressão dos instrumentos de sopro, explorando as características líricas e virtuosísticas do clarinete.
A Fantasia para clarinete e piano, de Sigismund Neukomm, compositor austríaco, foi composta em Paris, três anos antes da sua chegada ao Brasil. A obra apresenta características comuns ao repertório romântico para os instrumentos de sopro: variações líricas e virtuosísticas sobre temas de ópera. O piano funciona de maneira análoga à orquestra de ópera: comenta, acompanha e, muitas vezes, conduz as transições de caráter da obra.
Neukomm residiu no Rio de Janeiro entre 1816 e 1821. Nesse período, foi professor de música da Família Real portuguesa. Sua presença no Brasil foi essencial para a divulgação das obras de Mozart e Haydn junto à corte no Rio de Janeiro. Manteve contato direto com o padre José Maurício Nunes Garcia, colaborando com ele para a primeira execução do Réquiem de Mozart no Brasil.
A Ária de Carlos Gomes para clarinete e piano, composta em 1857, foi dedicada ao clarinetista francês Henrique Luís Levy, radicado no Brasil. Trata-se de uma ária de concerto, com caráter cantábile e desenvolvimento virtuosístico, claramente influenciada pelo bel canto. Henrique Levy fundou a Casa Levy em São Paulo, importante loja de música e é pai de Alexandre Levy, compositor e um dos pioneiros na inserção de elementos da música popular à música de concerto. Um de seus temas do Tango Brasileiro foi utilizado por Darius Milhaud no balé O Boi no Telhado.
As duas peças seguintes do programa são para piano solo, do compositor francês Darius Milhaud, que esteve no Brasil entre 1917-1918. A partir dessa experiência, escreveu, em 1920, a suíte Saudades do Brasil, para piano solo, composta por 12 peças. Cada uma delas foi dedicada a uma pessoa próxima ou pertencente ao círculo do compositor e recebeu um título que se refere a bairros ou regiões do Rio de Janeiro, à exceção da primeira, Sorocaba, cidade do interior paulista. Saudades do Brasil constitui um fio condutor na programação desta série de música de câmara do Festival, e outras duas peças da suíte estão programadas para o recital de piano solo.
Para este programa, selecionamos duas delas: Paineras, dedicada a La Baronne Frachon, escritora, poeta, viajante e figura ligada aos círculos artísticos parisienses. É uma peça curta, com melodia acompanhada por um desenho rítmico sincopado, entre um movimento constante da mão esquerda do piano.
A segunda peça é Payssandu, dedicada a Paul Claudel, poeta, enviado pela França ao Brasil como diplomata. Foi Claudel quem convidou Milhaud a vir ao país, com a intenção de manter a colaboração artística que ambos haviam iniciado.
As duas próximas obras estão diretamente ligadas ao material musical do nordeste brasileiro. A primeira, a Sonatina para clarinete e piano, do compositor alemão, radicado no Brasil, Ernst Mahle, foi composta em 1974. Com material modal e ritmos sincopados baseados na música nordestina, a obra apresenta uma escrita simples e se desenvolve em um único movimento, alternando trechos ritmados com passagens cadenciais e líricas.
Peripécias op. 56: Look at the sky!, do compositor baiano Paulo Costa Lima, é uma obra emblemática do repertório para clarinete solo, tanto pela dificuldade técnica, quanto pela expressividade. Baseada no tema do Olha pro céu, de Luiz Gonzaga, a obra evidencia uma escrita que busca a fusão de elementos da música popular nordestina com a música instrumental contemporânea. A composição explora os extremos da extensão, da expressão e do virtuosismo do clarinete, transformando uma rítmica complexa em fraseados que nos levam a ritmos dançantes do Nordeste. É uma obra de grande fôlego para o instrumentista, e de tirar o fôlego do público!
Ânima, para clarineta e piano, da compositora carioca Marisa Rezende, é uma obra de 2024, estruturada sobre frases musicais que se complementam e se entremeiam. Não existe uma hierarquia entre os instrumentos, as ressonâncias das notas sustentadas pelo pedal do piano se misturam aos sons da clarineta, promovendo uma atmosfera de unidade sonora ao longo da peça. Nas palavras da compositora: “Ânima, para clarineta e piano, trabalha o potencial expressivo de cada instrumento, partindo do antagonismo manifestado no início pelo contraste entre notas longas da clarineta e acordes rápidos e curtos no piano. No decorrer da peça, buscas por afinidades e consensos acontecem e, ao final, surge a concordância, sinal de apaziguamento.”
Edmundo Villani-Côrtes, compositor mineiro, radicado em São Paulo, manteve uma forte ligação com a música popular brasileira. Tendo atuado como diretor da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, sua composição dialoga constantemente com esse universo musical. Luz, para piano e clarinete, é uma obra de caráter lírico que explora o diálogo entre os dois instrumentos por meio de uma escrita simples e expressiva.
A obra que encerra o programa é Gosto de Brasil, da pianista, compositora e arranjadora goiana Francisca Aquino. Um baião baseado em um tema simples, permeado por frases construídas sobre ideias que nos levam ao imaginário da música brasileira, como se fossem memórias.