Editorial 14ª edição
“O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir.”
Milton Santos
O Brasil está sempre pensando e discutindo a sua própria identidade. Quem somos? O que podemos ser?
A ideia de diversidade nos explica até certo ponto. Mas haveria, para além dela, algo que nos distingue? Seria justamente uma amálgama de culturas e povos um de nossos traços característicos? Seria nossa identidade uma força em movimento que impede que nos assentemos numa essência e que, por isso mesmo, nos mantêm abertos ao outro, ao encontro e à possibilidade de convivência?
Essas questões nos interessam mais como horizontes de reflexão do que como enigmas a serem solucionados. Afinal, a identidade nacional é, também, um projeto em constante construção.
O 14º Festival de Música Erudita do Espírito Santo se propõe a olhar para o Brasil e a refletir sobre nossa história, sobre aspectos da cultura nacional, relações do Brasil com o mundo e outras questões relacionadas à brasilidade que se desdobram na programação.
Após quatro anos consecutivos de estreias de novas criações, em 2026, o Núcleo de Criação de Ópera expande o seu campo de atuação, voltando-se também para a recuperação, edição e montagem de obras brasileiras, ou cantadas em língua portuguesa, desconhecidas do público.
Na abertura desta nova edição – Brasil, saudades do Futuro – apresentaremos a ópera Helena, do compositor brasileiro João Gomes de Araújo com libreto de Bento de Camargo. Composta em 1906 e estreada em 1916 no Theatro Municipal de São Paulo, esta obra permaneceu esquecida por mais de um século. Graças ao projeto de recuperação do acervo do antigo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, coordenado pelo pesquisador Paulo Castagna, e ao trabalho do maestro Gabriel Rhein-Schirato sobre o legado operístico de Gomes de Araújo, o Núcleo pôde ter acesso à partitura orquestral e, a partir dela, produzir uma edição digitalizada completa da obra.
Como não existem evidências de que Helena tenha sido novamente encenada e tampouco gravada, a montagem será uma espécie de reestreia mundial, que joga luz sobre um capítulo significativo da história da ópera brasileira.
Embora, como linguagem, esteja inserida na estética do romantismo e do verismo italiano, a obra traz uma série de características brasileiras, tanto em seu libreto, livremente inspirado no romance Inocência de Visconde de Taunay, quanto na música. Helena representa uma tentativa de se criar uma ópera brasileira, com características próprias da nossa cultura, em um meio operístico ainda muito ligado à cultura europeia.
Passados 110 anos de sua estreia, Helena volta aos palcos sob a regência de Gabriel Rhein-Schirato, à frente da Oses, e direção cênica de Menelick de Carvalho. No elenco, Rodrigo Esteves, Monique Galvão, Rafael Stein, Alessandro Santana e o coro Vox Vitória.
Nos finais de semana seguintes, o Festival apresenta a série Concertos de Câmara, com curadoria de Cássia Carrascoza, flautista e professora da Universidade de São Paulo com importante atuação na música de concerto contemporânea brasileira. A programação plural proposta por Carrascoza traz obras de compositores e compositoras dos séculos XIX ao XXI, como Fructuoso Vianna, Claude Debussy, Carlos Gomes, Dinorá de Carvalho, Ricardo Tacuchian, Marisa Rezende, Valéria Bonafé, Hermeto Pascoal, Marco Pereira, Milton Nascimento e Francisca Aquino.
A série reúne artistas do Espírito Santo que tiveram performances marcantes em edições anteriores do Festival, como o pianista Willian Lizardo, o flautista Lucas Rodrigues, a harpista Maíni Moreno e grandes nomes de fora do estado: a soprano Raquel Paulin, os pianistas Antonio Vaz Lemes e Erika Ribeiro, e a própria Carrascoza, que faz uma participação especial no último dos cinco concertos.
Na segunda quinzena de novembro, a série Concertos Itinerantes apresentará o espetáculo Travessia, com obras de Baden Powell e Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, César Guerra-Peixe, Dorival Caymmi, Eunice Katunda, Heitor Villa-Lobos e João Bosco, e elenco formado pela soprano Débora Neves, o violonista Victor Polo e o percussionista Leo de Paula.
A série realizará também o projeto piloto Orquestras em Rede, com o objetivo de promover ações artístico-pedagógicas através do intercâmbio entre orquestras profissionais e orquestras de projetos sociais do Estado. No dia 22/11, a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo, Orquestra Sopros das Montanhas, Camerata Alef Bet, Orquestra Sinfônica Sul Espírito Santo, Orquestra de Câmara João XXIII, Orquestra Jonice Tristão e a Orquestra Jovem Capixaba do Instituto Cultura Viva estarão juntas em um concerto no Parque Cultural Casa do Governador. A apresentação contará com a participação de Erika Ribeiro, que abrirá o encontro com o Concerto n.1 para piano e orquestra de Camargo Guarnieri, ao lado da Oses, sob a regência do maestro Helder Trefzger.
O projeto Ópera nos Bairros voltará a apresentar o espetáculo cênico-musical Filhote de Trem, inspirado na obra homônima da escritora paulista Memélia de Carvalho, com música de Heitor Villa-Lobos, Carlos Gomes e Chiquinha Gonzaga.
O Festival dá continuidade, por mais um ano, aos projetos de formação e especialização artística e técnica em ópera, o VOE (Vitória Ópera Estúdio) e o Opera-cional, e ao Concurso de Canto Natércia Lopes.
Realizado entre junho e julho de 2026, o 7º VOE contou com participantes do Brasil e da América Latina. Como conclusão do processo, os alunos dos módulos interpretação, regência e correpetição apresentaram uma montagem da opereta Monsieur Choufleuri, de Jacques Offenbach, com direção cênica do encenador português Pedro Ribeiro, direção musical de Gabriel Rhein-Schirato e preparação vocal de Fabio Bezuti.
No encerramento do Festival, os vencedores da 5ª edição do Concurso de Canto Natércia Lopes se apresentarão com a Oses, no palco do Sesc Glória, sob a regência do maestro Helder Trefzger, em um concerto dedicado à ópera brasileira.
Ainda que o repertório brasileiro desta edição represente apenas uma pequena amostra de um universo tão vasto, a diversidade e a riqueza das obras nos faz sentir a força de nossa cultura. Uma pujança que nos convida a refletir sobre o Brasil que somos e, sobretudo, sobre o futuro que podemos construir.
Um ótimo Festival!
Livia Sabag, diretora artística
Curadoria concertos de câmara
O convite que recebi de Livia Sabag para realizar a curadoria dos concertos de câmara desta 14ª edição do Festival, Brasil, saudades do futuro, traz consigo o desafio de revermos nosso olhar, nossa escuta e de conhecermos quem somos. E pensar sobre a música no Brasil como elemento fundamental da construção de nossas memórias, de nossa identidade e de nosso futuro. Refletir sobre a maneira como tocamos, interpretamos e escutamos é perceber as ressonâncias da natureza, da pluralidade, da política, das contradições, da história, do amor e dos sonhos. É escutar os povos originários, a diáspora africana, os que imigraram, e também os estrangeiros que estiveram aqui e nos reinterpretaram.
A música brasileira é sincretismo, miscigenação; é diversa, formada por múltiplas raízes, acolhe e transforma influências, é antropofágica: nos nutre, nos transforma e nos ressignifica. É também a mistura de gêneros que rompe as barreiras entre a música de concerto e a música popular.
Pensamos a série de concertos de música de câmara como um conjunto de programas que convergem e dialogam entre si. Ao longo dos cinco recitais, construímos pontos de intersecção por meio de diferentes gêneros, de reinterpretações e do reaparecimento de algumas obras em novos contextos. Nesse percurso, Saudades do Brasil, de Darius Milhaud, e Clube da Esquina nº 2, de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, ocupam um lugar central. O tema da saudade atravessa também Saudades da Floresta Amazônica, de Villa-Lobos, e convida o público a reencontrar essas obras, reconhecer suas transformações e construir, pela memória da escuta, uma narrativa ao longo de toda a série de concertos.
Willian Lizardo e Cristiano Costa apresentam obras emblemáticas para duo de clarinete e piano. O programa se desdobra da plasticidade sonora do clarinete na ópera ao intimismo e alto virtuosismo, contemplando diferentes perspectivas de influências externas e ressignificações de estruturas musicais brasileiras.
O programa de canto e piano traz, com Raquel Paulin e Antônio Vaz Leme, um colorido de idiomas e vozes que coabitam no país, a diversidade de sentimentos, expressões da natureza e reflexões sobre nossas estruturas político-sociais.
A Sonata para flauta, viola e harpa, de Debussy, é a porta-bandeira do terceiro concerto. A partir dela, foram criadas as obras dos brasileiros Dottori, Catanzaro e Villa-Lobos. Ao trio original, formado pelo flautista Lucas Rodrigues, o violista Rodney Silveira e a harpista Maíni Moreno, reúnem-se a violinista Jacqueline Lima e o violoncelista Jonathan Azevedo, para completar o quinteto.
Em um recital de piano solo, Erika Ribeiro nos conduz por um trajeto sonoro que explora, em diversos níveis, a ruptura de barreiras entre o clássico e o popular.
Fechando o ciclo, o programa traz diferentes formações com instrumentos que são onipresentes em nossa música. O violonista Belquior Guerrero e os percussionistas Daniel Lima e Gabriel Novais me recebem como flautista para criarmos juntos um ambiente sonoro que articula a tradição e a liberdade.
Bom festival!
Cássia Carrascoza, curadora dos Concertos de Câmara
Editorial do patrocinador
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Como parte deste portfólio, a Shell contribui para a preservação e valorização da música brasileira. Por mais um ano, a companhia se une ao Festival de Música Erudita do Espírito Santo como patrocinadora master, para que, juntos, possam dar visibilidade à nova música de concerto e à criação de óperas brasileiras originais. Mais do que promover cultura, a Shell reafirma o compromisso com a sociedade brasileira e com todas as vozes que fazem a sua riqueza.