21/11, às 20h
Theatro Carlos Gomes
R. Barão de Itapemirim, 232 – Centro, Vitória
Erika Ribeiro, piano
Darius Milhaud (1982-1974)
Saudades do Brasil, op. 67: Copacabana
Darius Milhaud (1982-1974)
Saudades do Brasil, op. 67: Tijuca
Fructuoso Vianna (1896-1976)
Corta-Jaca
Cláudio Santoro (1919-1989)
Sonata para Piano
I. Allegro Energico
II. Adagio
III. Moderato
Hermeto Pascoal (1936-2025)
Série de Arco
Valéria Bonafé (1984)
Tátil
Milton Nascimento (1942)
Clube da Esquina 2
Heloísa Fernandes (1967)
Colheita
Leia Freire (1957)
Turbulenta
O recital solo já é uma tradição na programação do Festival. Neste ano, a artista convidada é Erika Ribeiro, pianista e estudiosa da música brasileira.
O programa inicia-se com duas peças do compositor francês Darius Milhaud, que esteve no Brasil entre 1917 e 1918. A partir dessa experiência, escreveu, em 1920, a suíte Saudades do Brasil, para piano solo, composta por 12 peças. Cada uma delas foi dedicada a uma pessoa próxima ou pertencente ao círculo do compositor e recebeu um título que se refere a bairros ou regiões do Rio de Janeiro, à exceção da primeira, Sorocaba, cidade do interior paulista. Saudades do Brasil constitui um fio condutor na programação desta série de música de câmara do Festival, e outras duas peças da suíte estão programadas para o recital de piano e clarineta.
Para este programa selecionamos:
Copacabana, dedicada a Godofredo Leão Velloso, pianista que se destacou pela difusão da cultura musical e da música contemporânea. A peça, de caráter calmo, é escrita em politonalidade e ritmos brasileiros. Durante a maior parte da obra, as melodias são acompanhadas por blocos dissonantes, que se diluem em acordes maiores surpreendentes.
Tijuca, dedicada a Ricardo Viñes, pianista espanhol que divulgou e realizou a estreia francesa de inúmeras obras de compositores de diversos países, inclusive Villa-Lobos. Repete-se o caráter calmo, e aqui também melancólico. A peça lembra um tango brasileiro.
As duas obras seguintes do programa são consideradas nacionalistas. No entanto, podemos perceber as características individuais de cada compositor e dimensionar a pluralidade de elementos que podem ser considerados nacionalistas na diversidade de sonoridades e ritmos.
Corta-Jaca é uma obra baseada em um tema folclórico simples, de caráter de dança e grande virtuosismo. Do compositor e pianista mineiro Fructuoso Vianna, foi escrita provavelmente em 1931. Vianna participou da Semana de Arte Moderna de 1922, interpretando obras de Villa-Lobos.
Sonata para piano n.3, de um dos mais importantes compositores brasileiros, o amazonense Cláudio Santoro, é uma obra do período em que o compositor consolidou seu idioma nacionalista. Provavelmente composta em 1955, é estruturada em 3 movimentos, Allegro energico, Adagio e Moderato. Segundo seu filho Alessandro Santoro: “a terceira sonata é notável por sua concepção quase orquestral: parece uma versão para piano de um original sinfônico.”
Hermeto Pascoal, compositor, pianista, flautista, multi-instrumentista alagoano, foi um dos maiores criadores musicais do nosso tempo. Reconhecido internacionalmente, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Juilliard School, em Nova Iorque. Série de arco é uma obra de caráter diferenciado dentro das produções de Hermeto, tem todas as partes escritas. A peça foi encomendada por Jovino dos Santos Neto, pianista do grupo de Hermeto, para uma coreografia de ginástica rítmica praticada pela irmã de Jovino. Daí o título Série de arcos. A obra é dividida em cinco partes, acompanhando a estrutura de uma série da ginástica rítmica. Neste recital, ouviremos a transcrição de Erika Ribeiro, incluída no CD Erika Ribeiro, premiado pela Revista Concerto em 2021 e indicado ao Grammy Latino de 2022 na categoria Melhor Álbum de Música Clássica.
Tátil, de 2007, da compositora paulista Valéria Bonafė, é uma peça centrada na escuta, tema central de sua composição. A obra traz para o programa uma perspectiva da música contemporânea. Nas palavras da compositora: “Tentei criar um ambiente sonoro composto por acontecimentos esparsos, buscando uma escuta mais espacial do que temporal. A atmosfera rarefeita e o tempo estendido tornam tudo transparente. Nada se esconde.”
Clube da Esquina nº 2, dos compositores mineiros Milton Nascimento e Lô Borges, foi lançada no LP Clube da Esquina em 1972. A música ainda não tinha letra e foi gravada com vocalises. Será apresentada neste Festival em suas duas versões: neste concerto, em arranjo de Erika Ribeiro e no recital para canto e piano, com a letra de Márcio Borges, escrita em 1979.
As duas obras que encerram o programa são de compositoras. São artistas que podemos dizer que têm uma assinatura própria, isto é, uma marca composicional. À medida que conhecemos seus trabalhos, percebemos o quão singular é seu universo criativo.
Heloísa Fernandes, pianista e compositora, com destacada carreira internacional, desenvolve um sólido trabalho voltado para identidade musical brasileira. Tendo pesquisado o acervo de registros musicais reunido por Mário de Andrade, selecionou material que reúne candomblé, maracatu, cateretê, samba, toada, entre muitos outros, como inspiração para novas obras. Colheita, dedicada a Naná Vasconcelos, foi criada inicialmente para duo de piano e percussão. É uma obra que permite grande liberdade de expressão aos intérpretes. Para este concerto, a compositora escreveu um arranjo especial.
Léa Freire é compositora, pianista e flautista, um dos maiores nomes da música instrumental brasileira, com grande reconhecimento internacional. Sua produção artística é marcada também pelo empreendedorismo em diversas frentes artísticas. Turbulenta é uma obra estabelecida com a alternância entre compassos de 4/4 e 7/4. Embora seja um conceito complexo, a audição da obra sugere um contínuo rítmico, que evoca a ideia de uma locomotiva. O arranjo da música é escrito especialmente para Erika Ribeiro.